sexta-feira, 23 de setembro de 2011

TERRA KANINDÉ DE ARATUBA


FUNAI elabora relatório de qualificação
Espaço abriga a tradição e a cultura Kanindé

Equipe da CR de Fortaleza viajou ao Maciço de Baturité para atender reivindicação da Justiça Federal do Estado do Ceará, por meio da Ação Civil Pública n.º 0009430- 95.2010.4.05.8100, proposta pelo MPF-Ministério Público Federal com pedido de liminar, visando realizar a demarcação da Terra Indígena tradicionalmente ocupada pela etnia Kanindé de Aratuba.

Cacique Sotero mostra detalhes da exposição permanente
Para tanto, procedeu-se à qualificação da área, a começar por sua identificação e delimitação, visando a regularização do território Kanindé localizado na Serra da Aratuba e entorno,  entre os municípios cearenses  Aratuba e Canindé. Os servidores da sede cearense da FUNAI, Francisco de Assis Pinheiro da Silva (técnico em Agricultura e Pecuária) e Lúcio André Wanderley Correia Mello (pregoeiro e agente em Indigenismo) promoveram inicialmente uma reunião de sensibilização com as lideranças daquele povo na Aldeia Fernandes, com o apoio do Cacique Sotero.

Itens são catalogados no acervo
Levantando dados e documentos junto ao Pajé Maciel e Cícero Kanindé, fizeram a seguir o trabalho de campo, incluindo um levantamento de pontos e coordenadas geográficas (plotagem) relevantes, com a utilização de GPS, finalizando com uma reunião para apresentar à comunidade os resultados preliminares da ação.

Produtos do extrativismo resultam da interação com a natureza
Atualmente, os Kanindé de Aratuba somam aproximadamente 640 pessoas — cerca de 185 famílias — que habitam 148 residências, segundo o Sistema de Controle Demográfico da Coordenação Regional de Fortaleza. Os dados obtidos quanto à localização da área reivindicada demonstram que a mesma encontra-se em sua maior parte no município de Aratuba, ocupando também uma faixa do município de Canindé e áreas limítrofes entre os dois.
Kanindé criam artesanato segundo o tipo de material utilizado

Mais especificamente, a T.I. Kanindé está localizada na microrregião do Maciço do Baturité (Serra da Aratuba e entorno), cortada pela CE-257 e pelo Riacho Catolé, cuja nascente encontra-se dentro da área reivindicada. Apresenta diversas formações rochosas e alguns riachos sem denominação, que correspondem às coordenadas registradas.

Variedade de artigos: para cada uso, uma técnica
Historicamente, sua ocupação remonta à nação Janduí, que ocupava diversas áreas das capitanias de Pernambuco, Paraíba, Itamaracá eRio Grande do Norte, compondo a etnia dos Tarairiú. Como tinham por hábito chamar o próprio povo pelo nome de seu líder, os Janduí (ancestrais dos Canindé) assim se chamaram em virtude do antigo líder, Janduí. “Quando Janduí foi sucedido na liderança por Canindé, guerreiro de destaque, os índios descendentes das tribos comandadas por Canindé passaram a chamar-se Canindé, embora continuassem sendo conhecidos pelos portugueses como Janduí". (1)


Museu registra a transformação de sementes, peles, penas, bambú e fibras

O chefe Kanindé, principal da tribo dos Janduís, liderou a resistência de seu povo no século XVII, obrigando o então rei de Portugal a assinar com ele um tratado de paz, firmado em 1692, mas descumprido por parte dos portugueses. Como ocorreu com muitos agrupamentos nativos, seus descendentes passaram a ser conhecidos como Kanindé, alusão ao chefe e à ancestralidade. Segundo a tradição oral, este grupo veio da região do atual Município de Mombaça, passando por Quixadá e pelas margens do rio Curu, entre os rios Quixeramobim e Banabuiú, junto aos seus parentes Jenipapo, antes de alcançar os seus atuais locais de morada.
Quando os holandeses ocuparam o Nordeste brasileiro, seus pintores, cronistas e historiadores deixaram vários registros, mesmo porque foram seus aliados. Neles os índios aparecem como “guerreiros temidos por outros indígenas, homens e mulheres fortes de corpo bem desenvolvido, que lutavam com grandes pedaços de madeira como arma, que era mortal. 

Seus rituais de ocupação da terra assemelhavam-se a jogos esportivos, em que alguns deles corriam com um grande tronco de árvore às costas, até o território do qual pretendiam a posse. Periodicamente, saíam em busca de novos locais para ocupação, pois eram povos nômades, coletores e caçadores. Praticavam a antropofagia ritual, assando os restos de entes queridos e misturando suas cinzas à comida". (2)
 A comunidade que atualmente vive na fronteira de Canindé com o Aratuba luta para ser reconhecida pelas autoridades como descendentes da tribo Canindé. A Assembléia Legislativa do Estado do Ceará criou comissão de estudos para reconhecer a comunidade como tal. “Em 1738, o padre Ezequiel Gameiro foi encarregado de catequizar 30 casais de Genipapo e 40 casais de Canindé, aldeados na Serra do Uruquê e no Rio Choró. A comunidade que reivindica o reconhecimento seria descendente dos membros desta missão”. (3)

O padre Neri Feitosa informa que os Canindé e Jenipapo habitaram os sertões do Curu, as margens do Quixeramobim e do Banabuiú, falando a mesma língua e compartilhando a mesma cultura, constituindo um grupo étnico que dominava vasto território do Nordeste brasileiro. "Nossos índios tinham consciência de que estas terras eram suas e as defenderam com lutas perseverantes e com as próprias vidas. 


Perderam as terras, porque perderam a guerra, mas resistiram enquanto foi possível. Perderam a batalha porque os brancos tinham armas de fogo e eles não. ‘A luta era desigual’", afirma o padre. Entre as táticas utilizadas pelos índios para assegurar sua sobrevivência, a de fingir-se pacificados e aliados dos colonizadores, como acabou ocorrendo com a tribo dos Canindé, primitivos habitantes dessa região, resultou válida. (4)
Os Kanindé radicados nos municípios de Canindé (Sertão Central) e Aratuba (Serra de Baturité), têm sua história marcada por longo processo de migrações forçadas, mas vêm mantendo, apesar desta dispersão, laços de parentesco e sociabilidade que unem as comunidades do Sítio Fernandes e da Serra da Gameleira, que compõem a etnia.
Os Kanindé chegaram ao Sítio Fernandes vindos da Serra da Gameleira, também conhecida como Serra do Pindar, em Canindé, por conta de secas — como a de 1877 — e invasões de suas terras por posseiros criadores de gado. Traço cultural herdado dos ancestrais, sua cultura da caça se materializa na existência de diversas armadilhas, como o '”quixó de geringonça”, utilizado no apresamento de animais como  mocó, tejo, cassaco, peba, veado, nambu, seriema e juriti, sempre respeitando os períodos de gestação dos bichos. Esta relação de sustentabilidade que mantêm com a natureza é ensinada aos novos caçadores da tribo e busca garantir a permanência da caça para as próximas gerações.
A chamada “Terra da Gia” foi durante muito tempo utilizada pelos Kanindé para suas plantações e caça, constituindo-se como significativo lugar de memória para o grupo. Em 1995, após grande luta junto aos trabalhadores rurais locais, este terreno foi desapropriado pelo INCRA-Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Após querelas na divisão da terra, os Kanindé do Sítio Fernandes ficaram com 270 hectares e continuam plantando no sistema de roçados.
“Em 1996, por iniciativa de José Maria Pereira dos Santos, mais conhecido por Cacique Sotero, foi aberto à visitação pública o Museu dos Kanindé, que traz em seu acervo artesanato (seu trabalho em madeira merece destaque) e instrumentos de caça e dança, entre outros. Mantido em relativo sigilo até o ano citado, foi com o acirramento da luta por seus direitos que o museu foi exposto ao público, constituindo mais uma forma de afirmação étnica do povo Kanindé".(5)
Depreende-se destas e de (muitas) outras informações registradas que o grupo possui amplo histórico cultural, mantendo suas tradições, que inclusive tiveram destaque na imprensa local em diversas ocasiões. Recentemente foi feita a catalogação arqueológica das peças do Museu dos Kanindé, sob orientação profissional de uma arqueóloga ligada à UFPE-Universidade Federal de Pernambuco.
Por fim, um levantamento antropológico está sendo finalizado pelo historiador Alexandre Oliveira Gomes (UFC-Universidade Federal do Ceará), mestrando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco (PPGA-UFPE), coordenador do Projeto Historiando e responsável por trabalhos e publicações sobre etnicidade, coleções etnográficas e museus indígenas no Estado do Ceará, que cedeu documentos e artigos para a confecção do roteiro apresentado pelos servidores supracitados.

(1) São Francisco de Canindé na Literatura de Cordel. Viana, Arievaldo. Edições Livro Técnico, 2002).
(2) revista Caros Amigos. Sposito, Fernanda. Coleção Rebeldes Brasileiros
(fascículos publicados entre 2000 e 2002)
(3) jornal Santuário de São Francisco (órgão da Paróquia de São Francisco das Chagas). Junho/2001
(4) jornal Santuário de São Francisco. Junho/2001
(5) http://funaiceara.blogspot.com/


(texto: Marco Krichanã, com edição de trechos do relatório
Qualificação de Reivindicações / Terra Indígena Kanindé de Aratuba)
(fotos: Francisco de Assis Pinheiro)
 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Desfile 07 setembo


Alunos da Escola kanindé participa do desfile 7 de setembro



CURSO DE ARTESANATO KANINDÉ

      A escola kanindé de Aratuba prestigia os novos artesões kanindé, foi um curso com carga horária de 30hs, apoiado pela FIEC, sendo que os monitores foram artesões da própria comunidade, o público alvo foi jovens da comunidade, pois ficaram felizes e valorizaram muito o curso, no qual uma aluna emociona todos presentes falando da importância de valorizar suas terras tradicionais, e não saindo da comunidade para trabalhar nas grandes cidades. E também uma forma de tá preservando e ensinando a cultura do povo para as novas gerações.


Aluna trabalhando com cipó     Artesanato produzido pelos cursistas

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Preservação da cultura


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Gozando de boa saúde, Tereza prefere os remédios do mato aos da farmácia, seguindo a tradição indígena
PATRÍCIA ARAUJO
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Colares criados pela Kanindé Tereza. Abaixo, detalhe de caixas feitas com fibra de bananeira por artesãs da aldeia de Aratuba
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Tranquila, de traços indígenas marcantes, aparentemente tímida, Tereza da Silva Santos, 60 anos, se transforma quando recepciona visitantes no Museu dos Kanindé. Na ausência do marido, o cacique Sotero, é ela quem faz as honras da casa, explicando as conquistas e as peças que contam a história da aldeia na zona rural de Aratuba. Outra mensagem passada por ela diz respeito à preservação do meio ambiente.

Nascida na comunidade, Tereza se casou aos 13 anos com José Maria Pereira dos Santos, 67, como é registrado o cacique."Estava embuchada e tive de casar às pressas". Próximo de completar bodas de ouro, eles têm cinco filhos, todos casados, e 14 netos. Dois deles, já rapazes, foram criados pelos avós e até hoje continuam morando juntos.

Uma das maiores preocupações de Tereza é com a preservação da cultura indígena. Por isso, sente orgulho em fazer o artesanato com fibras e sementes, a exemplo de pau-brasil e mulungu-vermelha. O cocar, sua especialidade, é de tecido, coberto com trançado de fibra de bananeira e decorado com penas de aves.

Nosso encontro, previamente agendado pelo celular, aconteceu na Escola Diferenciada de Ensino Fundamental e Médio Manuel Francisco dos Santos. Enquanto aguardávamos a nossa entrevistada, outras mulheres exibiam algumas peças artesanais, como colares, brincos e caixas revestidas com a fibra da bananeira.

Logo avistamos Tereza, a passos lentos, subindo uma das ladeiras de terra batida que dá acesso ao colégio. O percurso é lindo e, ao mesmo, tempo exaustivo. Numa sacolinha de plástico, trazia vários colares de sementes extraídas da mata e os cocares.

Rituais

A produção é destinada, principalmente, à Loja de Artes Indígenas Toré-Torém, na Ceart, em Fortaleza. Também são usadas pela comunidade nas apresentações culturais. Tereza destina uma parte das peças para esses rituais, como o Torém.

"Antes de representar uma fonte de renda, o mais importante no meu trabalho artesanal é a preservação da nossa cultura", ressalta a Kanindé. Sente-se recompensada, por exemplo, quando vê crianças e adolescentes, ornamentados com suas peças, se apresentando na escola.

Tereza e o marido são aposentados rurais e recebem, por mês, um salário mínimo, cada. Talvez por não depender do ofício para sobreviver, ela produz apenas quando tem vontade e está inspirada. A luta da casa é árdua. "Sou sozinha e cuido também da limpeza do museu". Quando o inverno é bom, ainda vai ao roçado.

Por ter começado na lida criança, quase não estudou. Só sabe escrever o nome. Há pouco tempo, tentou numa turma de Educação para Jovens e Adultos (EJA). "Não consegui aprender nada, minha vista cansada atrapalhou. Terminei largando". Não pensa em voltar, embora afirme enfática: "Vontade eu tinha demais!".

Da mesma forma, empolga-se quando se reporta à fé em São Francisco: "Já consegui uma grande graça com ele, quando meu marido ficou muito doente. Não falto um ano a sua festa em Canindé".

FRAGMENTOS
História em museu
Na Aldeia do Sítio Fernandes, em Aratuba, moram 148 famílias (cerca de 700 pessoas). A localização é privilegiada, com altura média de 900 metros acima do nível do mar. Segundo o cacique Sotero, há apenas 15 anos ganharam o reconhecimento de comunidade indígena.

Vizinho à casa, ele montou, em 1996, ao lado do irmão Cícero, o Museu dos Kanindé, reunindo cerca de 300 peças que retratam a história do seu povo. Muitas delas relacionadas à caça.

O espaço ainda demonstra preocupação ecológica. "Aqui, ninguém prende mais passarinho em gaiola. É essa proteção da natureza que a gente passa também para os nossos visitantes", diz Sotero.

O prédio da Escola Diferenciada de Ensino Fundamental e Médio Manoel Francisco dos Santos, inaugurado em 2006, é outro orgulho da comunidade.

Com 145 alunos, tem a proposta de resgatar a cultura indígena por meio da educação.

O estabelecimento já funcionava desde o ano 2000 em outra sede. No colégio, um painel, escrito à mão, registra, numa linha do tempo, as vitórias do povo Kanindé. Por exemplo: em 1995, os indígenas de Aratuba conquistaram a Gia (terra que foi durante muito tempo utilizada por eles para fazerem suas plantações e caçarem, se constituindo como significativo lugar de memória para o grupo). Após grande luta junto aos trabalhadores rurais locais, esse terreno foi desapropriado pelo Incra.
FONTE: DIÁRIO DO NORDESTE - Publicado no dia 06 de junho de 2010

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Encerramento 1º semestre


A escola Kanindé encerrou suas atividades com os alunos nesta quinta, com todos os alunos, que prestigiaram a apresentação da quadrilha ARRASTA PÉ DO CAMPO, uma quadrilha organizada por jovens da comunidade. Uma tradição herdada pelos mais idosos da comunidade, que até hoje os mais novos tem essa preocupação de está resgatando. e nesta sexta feira se encerra todas as atividades na escola com uma reunião com os pais para entregar as avaliações dos alunos e discutir sobre as aprendizagem dos alunos.





Sala multifuncional

A sala de aula de alunos com necessidades especiais da escola kanindé

 ‘A inclusão é uma inovação na escola kanindé, No entanto, inserir alunos com déficits em aprendizagem, permanentes ou temporários, mais graves ou menos severos no ensino regular nada mais é do que garantir o direito de todos à educação - e assim diz a Constituição !
‘O motivo que sustenta a luta pela inclusão como uma nova perspectiva para as pessoas com deficiência é, sem dúvida, a qualidade de ensino nas escolas.



quarta-feira, 29 de junho de 2011

USOS - SABERES - SENTIDOS


PLANTAS MEDICINAIS INDÍGENAS

Este trabalho – reconhecidamente inicialmente -  é um convite para entrar em novos-velhos mundos com respeito e com a humildade de quem deseja aprender. Ao mergulharmos nesse conhecimento das plantas medicinais, descobrimos o quanto existe de vitalidade, de esperança e de ação dos indígenas.



SENTIR - PENSAR - FAZER


ARTESANATO INDÍGENA NO CEARÁ


Livro produzido pelos alunos da UFC do curso MITS e MISI PITAKAJA
Essa publicação é um unicio de uma ousadia, talves de uma aventura de reconhecer em nossas raízes o fruto do conhecimento, de olhar para dentro e assim encontrar mais fortemente nossa identidade. É com esse intuito que convidamos a você a iniciar ou percorrer esse caminho, sabemos que ele é longo, que estamos apenas no começo.